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Recall é obrigatório? O que a convocação muda para o dono do carro

Por Juliano Tessaro · Publicado em · Atualizado em

técnico de macacão azul faz anotações numa prancheta apoiada no carro, dentro de uma oficina

Resposta curta: a obrigação principal pesa sobre o fabricante. A regra está no Código de Defesa do Consumidor, cujo décimo artigo manda que a empresa, ao descobrir perigo num item que já está nas mãos dos clientes, torne o risco público, chame os compradores e faça a correção.

A resposta completa interessa mais ao dono do carro, porque desde 2021 deixar a convocação de lado passou a ter efeito prático sobre a situação do veículo, e não apenas sobre a segurança de quem está a bordo.

Sem custo e sem data para acabar

O reparo de recall não cobra peça nem mão de obra. Qualquer taxa pedida em nome da campanha é indevida, seja qual for a justificativa apresentada. Também não cabe condicionar o reparo à compra de outro serviço ou a uma revisão paga marcada para o mesmo dia.

Esse direito também não caduca. Ele acompanha o carro e vale para quem é dono agora, seja o primeiro comprador, seja o quinto.

A carta de convocação costuma sugerir um período para o atendimento, mas esse período existe para organizar a agenda das concessionárias. Passada a data indicada, o direito continua intacto.

A mudança que começou a valer em 2021

Desde abril de 2021, o CTB traz no seu art. 131 um dispositivo incluído pela Lei 14.071/2020. Passado um ano da comunicação ao proprietário sem que o carro vá à oficina, a pendência é anotada no documento anual, e a regularização anual passa a exigir prova do reparo.

Um ajuste posterior, trazido pela Lei 14.229/2021, restringiu essa exigência às campanhas abertas a partir de outubro de 2019. Convocações mais antigas continuam valendo como direito do consumidor, mas não seguram o documento.

O efeito prático é fácil de resumir. O recall segue sendo um direito, só que agora também pode travar a papelada do carro, e a regra não distingue defeito leve de defeito grave: os dois entram na mesma conta.

Como saber se existe pendência

A dúvida se resolve pelo chassi. Esse código de 17 caracteres, também conhecido como VIN, vem impresso no documento do veículo, gravado nos vidros e numa plaqueta no batente da porta. Qualquer pessoa pode fazer a consulta, seja no site da montadora, seja num serviço público de proteção ao consumidor. Repita a pesquisa anualmente, já que surgem campanhas para carros com muitos anos de uso, bem depois do fim da garantia.

Modelo e ano não bastam para saber se o carro foi atingido. Cada campanha delimita um intervalo de números de série, de modo que dois carros idênticos, saídos da fábrica com poucas semanas de diferença, podem estar em situações opostas.

Os motivos mais comuns do esquecimento

Por que tanta gente deixa passar? Em muitos casos a carta é descartada sem ser aberta, tomada por mala direta. Em outros, o cadastro parou no dono anterior e o aviso nunca chegou a quem dirige hoje. E há o defeito que não dá sinal nenhum, o que faz o assunto parecer adiável. Mudou de endereço ou de telefone depois da compra? Quase ninguém lembra de avisar a montadora.

Dos três, o silêncio do defeito é o que mais preocupa. Uma falha latente tende a se mostrar na situação-limite, como o pré-tensionador de cinto que não atua numa colisão, e não manda recado antes.

Três palavras que não são sinônimas

Garantia é a cobertura contra defeito de fabricação, válida pelo tempo escrito no contrato. Revisão é manutenção paga, no ritmo que o manual define. Já o recall é uma campanha de segurança gratuita e sem vencimento, que vale com ou sem garantia em vigor.

Misturar os três conceitos costuma gerar cobranças que não deveriam existir ou, no sentido oposto, a crença de que um carro sem garantia perdeu o direito à campanha. Fazer as revisões fora da concessionária também não tira do dono o direito ao recall. A campanha é uma obrigação do fabricante com o produto, e não um benefício condicionado à fidelidade à rede.

O recall na hora de comprar usado

Antes de fechar negócio, vale gastar dois minutos com a pesquisa pelo chassi. Encontrar pendência não é motivo para desistir; basta resolvê-la antes que chegue a época da regularização anual.

Caso o vendedor já tenha feito o reparo, peça a ordem de serviço da campanha junto com as outras notas de manutenção, que é a comprovação mais simples. A consulta diz ainda alguma coisa sobre quem vendeu: se nem um conserto gratuito foi atendido, é razoável supor o mesmo descaso com aquilo que não aparece numa primeira olhada.

Quem agenda o reparo é a rede autorizada da marca; no dia marcado, leve a sua identidade e o documento do carro. O endereço de registro não pesa, porque a campanha está ligada ao chassi: quem comprou em Porto Alegre um carro vindo de Recife pode ser atendido em qualquer concessionária do país. No interior, em cidades como Caruaru ou Caxias do Sul, muitas vezes sobra horário livre mais cedo do que nas capitais.

Serviço concluído, a ordem de serviço vai para a pasta do carro. Se o sistema demorar a registrar a baixa, é esse papel que prova o atendimento.

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